Mostra reúne cerca de 60 desenhos e cinco objetos instalativos e propõe novas leituras sobre corpo, ausência e acessibilidade estética.
O Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti (MACC) recebe, a partir de 25 de abril de 2026, a exposição “Decorpóreo”, do artista visual Daniel Moraes, com curadoria de Cecilia Stelini e texto curatorial de Flávia Bertinato. A mostra reúne cerca de 60 desenhos e cinco objetos instalativos produzidos entre 2019 e 2026, apresentando um panorama de uma pesquisa que desloca a deficiência do campo da representação para o da linguagem.
Entre desenho, pintura e instalação, Moraes articula elementos de sua biografia a uma investigação mais ampla sobre as construções culturais e políticas da anatomia humana. O título joga com a ideia de corpóreo e com o exercício crítico de deformação e decomposição sugerido pelo prefixo “de”, propondo uma reflexão sobre forma, informe e mutabilidade.
O ponto de partida é o conceito de “decorporeidade”, desenvolvido pelo artista durante seu mestrado em Lisboa. A pesquisa parte da experiência do corpo com deficiência como elemento estruturante das decisões estéticas, materiais e simbólicas. “A minha deficiência afeta e infecta todas as minhas escolhas — de materiais, de imagens, de gestos. Não é um tema, é uma forma de construir a obra”, afirma.
A exposição se organiza em três eixos interligados — Monstruário, Amputos e Suturações — que funcionam como momentos de uma mesma investigação contínua sobre o corpo em transformação. Em vez de núcleos fechados, o artista propõe atravessamentos entre as séries, reforçando a ideia de instabilidade formal e conceitual.
Um dos eixos centrais está na relação entre corpo com deficiência e monstruosidade. Partindo da constatação de que esses corpos foram historicamente associados ao monstruoso na cultura visual, Moraes propõe uma inversão simbólica. “A monstruosidade se apropriou por séculos do corpo com deficiência. Agora é o momento de a gente se apropriar da monstruosidade e levar isso para outros lugares”, diz. As figuras que emergem nos desenhos tensionam o olhar, provocando estranhamento e questionando padrões normativos.
A crítica à lógica produtivista também atravessa a mostra. Ao recusar dicotomias como corpo funcional e não funcional, o artista problematiza critérios de eficiência que definem o valor do corpo pela utilidade. “Existem muitas possibilidades entre eficiência e deficiência”, afirma. O trabalho abre espaço para outras formas de existência e experiência.
No núcleo mais recente, Suturações, a cicatriz aparece como linguagem. Longe de simbolizar superação ou apagamento do trauma, ela é apresentada como permanência, memória e potência. “Eu não quero que esse trauma seja apagado. Quero que ele reverbere. A cicatriz não é algo a ser curado, é algo a ser incorporado.” Instrumentos cirúrgicos, objetos cortantes e ataduras surgem como dispositivos de tensão entre cortar e cuidar, revelando ambiguidades nos gestos de tratamento e proteção.
Ao evitar respostas fechadas, a exposição se constrói como campo de investigação compartilhado com o público. O desconforto é acionado como parte da experiência estética, ampliando o debate sobre deficiência, imagem e poder.
Além da mostra, o projeto inclui atividades educativas, visitas mediadas e recursos de acessibilidade, como audiodescrição e Libras. A proposta é expandir não apenas o acesso físico ao museu, mas o próprio conceito de acesso, incorporando a deficiência como produtora de conhecimento estético e crítico.
Nascido em 1981, em São Paulo, Daniel Moraes vive e trabalha em Campinas. É mestre em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e desenvolve pesquisas que articulam arte contemporânea e estudos da deficiência. Seu trabalho já foi apresentado no Brasil e no exterior, em países como Portugal, Itália e Coreia do Sul.
Serviço
Exposição: Decorpóreo — Daniel Moraes
Curadoria: Cecilia Stelini
Texto crítico: Flávia Bertinato
Local: Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti” (MACC)
Abertura: 25 de abril de 2026, às 11h
Visitação: 25 de abril a 13 de junho de 2026
Entrada: gratuita
Programação
25/04 – Abertura (11h) | Visita com artista (14h)
16/05 – Conversa com artista, curadora e crítica (10h–12h)
13/06 – Performance (11h) | Visita (14h30)
